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O SANTO ROSÁRIO - Segundo o Bem Aventurado Paulo VI, na Marialis Cultus

Domingo, 08.03.15

Atendamos às sábias e santas Palavras do BearoPaulo VI, sobre o Rosário,

Na Exortação Apostólica 'Marialis Cultus' - N.os 42 a 55:

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O santo Rosário

42.  E queremos em seguida, veneráveis Irmãos, deter-nos um pouco mais longamente sobre a renovação daquele outro exercício de piedade, que já foi chamado "o compêndio de todo o Evangelho": (69) o Rosário, ou então o Terço (ou Coroa), de Nossa Senhora.

Os nossos predecessores dedicaram a esta prática vigilante atenção e diligente solicitude. Assim, mais de uma vez recomendaram a recitação do Rosário, favoreceram a sua difusão, ilustraram a sua natureza, reconheceram-lhe aptidão para desenvolver uma oração contemplativa, de louvor e simultaneamente de súplica, recordaram a sua conatural eficácia para promover a vida cristã e o empenho apostólico.

Nós próprios, desde a primeira audiência geral do nosso pontificado, a 13 de julho de 1963, temos tido ocasião de demonstrar a nossa grande estima pela piedosa prática do Rosário;(70) em momentos sucessivos não deixamos de sublinhar o seu valor, em circunstâncias multíplices, umas ordinárias e outras graves, como quando, numa hora de angústia e de insegurança, publicamos a Carta Encíclica "Christi Matri" (15 de setembro de 1966), para que fossem dirigidas orações suplicantes à bem-aventurada Virgem do Rosário, para impetrar de Deus o supremo bem da paz; (71) apelo, esse, que renovamos na nossa Exortação Apostólica "Recurrens mensis October" (7 de outubro de 1969), com a qual comemorávamos o quarto centenário da Carta Apostólica "Consueverunt Romani Pontífices" do nosso predecessor São Pio V, que nela ilustrou e, de algum modo, definiu a forma tradicional do Rosário. (72)

 

43.  E esse nosso interesse assíduo pelo que se refere à tão querida devoção do Rosário da bem-aventurada Virgem Maria levou-nos a acompanhar sempre, com ânimo atento, os numerosos convênios dedicados nestes últimos anos à pastoral do mesmo Rosário no mundo contemporâneo; convênios promovidos por associações e por pessoas singulares, às quais está profundamente a peito a mesma devoção do Rosário, e nos quais participaram bispos, presbíteros, religiosos e leigos de comprovada experiência e de manifesto sentido eclesial. Entre eles, é justo recordar os Filhos de São Domingos, por tradição guardiães e propagadores dessa tão salutar devoção. Aos trabalhos de tais convênios têm vindo a juntar-se as investigações dos historiadores, conduzidas, não com sentido de definir, quase com intuitos arqueológicos, qual a forma primitiva do Rosário, mas, sim, para apreender-lhe as intuições originais, a energia primigênia e a estrutura essencial. De tais convênios e investigações apareceram, mais nitidamente, quais as características primárias do Rosário e quais os seus elementos essenciais e a mútua relação existente entre eles.

44.  Assim, por exemplo, apareceu numa luz mais viva a índole evangélica do mesmo Rosário, na medida em que se salientou que ele vai haurir ao Evangelho o enunciado dos mistérios e as fórmulas principais; no Evangelho se inspira, ainda, a sugestão para aquela atitude com que o fiel o deve recitar, a partir da jubilosa saudação do Anjo e do correspondente assentimento religioso da Virgem Maria; e do Evangelho, enfim, lembra, no suceder-se das Ave-Marias, um mistério fundamental, a Encarnação do Verbo, contemplado no momento decisivo da Anunciação feita a Maria. O Rosário, por conseguinte, é uma oração evangélica, como hoje em dia, talvez mais do que no passado, gostam de a definir os pastores e os estudiosos.

 

45.  Foi percebido com maior clareza, além disso, que o ordenado e gradual desenrolar-se do Rosário reflete aquele mesmo modo com que o Verbo de Deus, ao inserir-se por misericordiosa decisão, nas vicissitudes humanas, operou a Redenção. O Rosário, de fato, considera numa sucessão harmoniosa os principais eventos "salvíficos" da mesma Redenção, que se realizaram em Cristo: desde a concepção virginal, passando pelos mistérios da infância, até aos momentos culminantes da Páscoa, a bendita Paixão e gloriosa Ressurreição, e aos efeitos da mesma sobre a Igreja nascente, no dia de Pentecostes, e sobre a Virgem Maria, na altura em que, tendo terminado o exílio terreno, foi assumida em corpo e alma à pátria celestial.

Foi observado, ademais, que a tríplice divisão dos mistérios do Rosário, não só coincide de maneira perfeita com a ordem cronológica dos fatos, mas sobretudo reflete também o esquema do primitivo anúncio da fé e evoca o mistério de Cristo, daquele mesmo modo como ele é visto por São Paulo, no célebre "hino" da Epístola aos Filipenses: despojamento, morte e exaltação (cf. 2,6-11).

 

46.  Oração evangélica, centrada sobre o mistério da Encarnação redentora, o Rosário é, por isso mesmo, uma prece de orientação profundamente cristológica. Na verdade, o seu elemento mais característico, a repetição litânica do "Alegra-te, Maria", torna-se também ele, louvor incessante, a Cristo, objetivo último do anúncio do Anjo e da saudação da mãe do Batista: "bendito o fruto do teu ventre" (Lc 1,42). Diremos mais ainda: a repetição da Ave-Maria constitui a urdidura sobre a qual se desenrola a contemplação dos mistérios; aquele Jesus que cada Ave-Maria relembra é o mesmo que a sucessão dos mistérios propõe, uma e outra vez, como Filho de Deus e da Virgem Santíssima; nascido numa gruta de Belém; apresentado pela mesma Mãe no Templo; um rapazinho ainda, a demonstrar-se cheio de zelo pelas coisas de seu Pai; depois, Redentor, agonizante no horto, flagelado e coroado de espinhos; a carregar a cruz e a morrer sobre o Calvário; por fim, ressuscitado da morte e elevado à glória do Pai, para efundir o dom do Espírito.

É coisa conhecida que, exatamente para favorecer a contemplação e para que a mente estivesse sempre em sintonia com as palavras, se costumava outrora, e tal costume conservou-se em diversas regiões, ajuntar ao nome de Jesus, em cada Ave-Maria, uma cláusula, que chamasse a atenção para o mistério enunciado.

 

47.  Depois, fizeram tais convênios e investigações com que se sentisse, com maior urgência, a necessidade de recordar, ao lado do elemento laudativo e deprecatório, a importância de outro elemento essencial do Rosário: a contemplação. Sem esta, o mesmo Rosário é um corpo sem alma e a sua recitação corre o perigo de tornar-se uma repetição mecânica de fórmulas e de vir a achar-se em contradição com a advertência de Jesus: "Nas vossas orações, não useis de vãs repetições, como os gentios, porque imaginam que é pelo palavreado excessivo que serão ouvidos" (Mt 6,7). Por sua natureza, a recitação do Rosário requer um ritmo tranqüilo e uma certa demora a pensar, que favoreçam, naquele que ora, a meditação dos mistérios da vida do Senhor, vistos através do coração daquela que mais de perto esteve em contacto com o mesmo Senhor, e que abram o acesso às suas insondáveis riquezas.

 

48.  Mediante a reflexão contemporânea, por fim, puderam ser compreendidas com uma maior precisão as relações existentes entre a Liturgia e o Rosário. Por um lado, foi salientado que o Rosário é como que um rebento que germinou sobre o tronco secular da Liturgia cristã, qual "Saltério da Santíssima Virgem", com que os humildes se pudessem associar ao cântico de louvor e à intercessão universal da Igreja; por outro lado, observou-se ainda, isso aconteceu no declinar da Idade Média, numa época em que o espírito litúrgico se encontrava em decadência e se começava a verificar um certo afastamento dos fiéis da Liturgia, para se ir mais para uma devoção sensível para com a Humanidade de Cristo e para com a bem-aventurada Virgem Maria.

Se em tempos não recuados pôde surgir no espírito de alguns o desejo de ver o Rosário incluído no número das expressões litúrgicas, e, pelo contrário, da parte de outros, levados pela preocupação de evitar erros pastorais do passado, uma injustificada desatenção em relação ao mesmo Rosário, hoje o problema é facilmente solucionável, à luz dos princípios da Constituição Sacrosanctum Concilium: as celebrações litúrgicas e o pio exercício do Rosário não se devem contrapor nem equiparar.(73)

Cada expressão de oração, na verdade, conseguirá ser tanto mais fecunda, quanto mais conservar a sua verdadeira natureza e a fisionomia que lhe é própria. Reafirmando, portanto, o valor proeminente dos atos litúrgicos, não será difícil reconhecer que o Rosário é um exercício de piedade que se harmoniza facilmente com a sagrada Liturgia. Como a Liturgia, efetivamente, também o mesmo Rosário tem uma índole comunitária, se nutre da Sagrada Escritura e gravita em torno do mistério de Cristo. Depois, muito embora em planos essencialmente diversos, anamnese na Liturgia e memória contemplativa no Rosário têm por objeto os mesmos eventos "salvíficos" realizados por Cristo. A primeira torna presentes, sob o véu dos sinais, e operantes, de modo misterioso, os máximos mistérios da nossa Redenção; a segunda, por sua vez com o piedoso afeto da contemplação, reevoca na mente daquele que ora esses mesmos mistérios e estimula nele a vontade para haurir aí normas de vida.

Estabelecida esta diferença substancial, não há quem não veja ser o Rosário um pio exercício que à Liturgia foi buscar a sua motivação e que, se for praticado de acordo com a sua inspiração originária, a ela conduz, naturalmente, sem no entanto transpor o seu limiar. A meditação dos mistérios do Rosário, de fato, ao tornar familiares à mente e ao coração dos fiéis os mistérios de Cristo, pode constituir uma ótima preparação, e vir a ser, depois, um eco prolongado da celebração dos mesmos mistérios nos atos litúrgicos. É erro, todavia infelizmente, ainda a subsistir nalguns lugares, o recitar o Rosário durante a ação litúrgica.

 

49.  O Rosário (Terço-Coroa) da bem-aventurada Virgem Maria, segundo a tradição que foi acolhida e autorizadamente proposta pelo nosso predecessor São Pio V, consta de vários elementos, dispostos de modo orgânico:

a) a contemplação, em comunhão com Maria, de uma série de mistérios da Salvação, sapientemente distribuídos em três ciclos que exprimem: o gozo dos tempos messiânicos; a dor "salvífica" de Cristo; e a glória do divino Ressuscitado que inunda a Igreja. Uma tal contemplação, pela sua natureza, conduz à reflexão prática e suscita estimulantes normas de vida.

b) a Oração Dominical, ou Pai-Nosso, que, pelo seu imenso valor, está na base da oração cristã e a nobilita nas suas diversas expressões.

c) a sucessão litânica da Ave-Maria, que resulta composta da saudação do Anjo à Virgem Santíssima (cf. Lc 1,28) e do bendizente obséquio de Isabel (cf. Lc 1,42), ao que se segue a súplica eclesial Santa Maria. A série continuada das Ave-Marias é uma característica peculiar do Rosário, e o seu número, na forma típica e plenária de cento e cinqüenta, apresenta uma tal ou qual analogia com o Saltério e é um dado que remonta à própria origem do piedoso exercício. Mas esse mesmo número, de acordo com um costume comprovado, dividido em dezenas coligadas a cada um dos mistérios, distribui-se nos três ciclos acima mencionados, dando lugar ao conhecido Terço, de cinqüenta Ave-Marias, o qual entrou em uso qual medida normal do mesmo exercício e, como tal, foi adotado pela piedade popular e sancionado pela Autoridade pontifícia, que o enriqueceu com numerosas indulgências.

d) a doxologia Glória ao Pai, que, em conformidade com uma orientação generalizada da piedade cristã, encerra a oração com a glorificação de Deus, uno e trino, do qual, pelo qual e para o qual são todas as coisas (cf. Rom 11,36).

 

50.  Estes são, pois, os elementos do santo Rosário. Cada um deles tem a sua índole própria, que, acertadamente compreendida e apreciada, deve refletir-se na recitação, a fim de que o mesmo Rosário exprima toda a sua riqueza e variedade. Essa recitação, por conseguinte, tornar-se-á: grave e implorante, na Oração Dominical; lírica e laudativa, no transcorrer calmo das Ave-Marias; contemplativa, na reflexão atenta sobre os mistérios; e adorante na doxologia. E isto, note-se, em todas aquelas maneiras como costuma ser recitado o Rosário: quer privadamente, recolhendo-se aquele que ora na intimidade com o Senhor; quer comunitariamente, ou em família, ou por vários fiéis reunidos em grupo, para criar condições para uma particular presença do Senhor (cf. Mt 18,20), ou, ainda, publicamente, em assembléias para as quais é convocada qualquer comunidade eclesial.

 

51.  Em tempos recentes, vieram a ser criados alguns pios exercícios, que vão buscar inspiração ao santo Rosário. Entre estes, queremos fazer menção e recomendar os que inserem no esquema habitual das celebrações da Palavra de Deus alguns elementos típicos do mesmo Rosário, como por exemplo, a meditação dos mistérios e a repetição litânica da saudação angélica. Tais elementos adquirem assim um maior relevo, enquadrados como são na leitura de textos bíblicos, ilustrados pela homilia, rodeados de pausas de silêncio e sublinhados com o canto. É-nos grato saber que semelhantes exercícios têm contribuído para fazer apreender mais completamente as riquezas espirituais do mesmo Rosário, e para que seja tida em maior apreço a sua prática no seio de associações e de movimentos de jovens.

 

52.  Queremos agora, em continuidade de pensamento com os nossos predecessores, recomendar vivamente a recitação do santo Rosário em família. O Concílio Vaticano II pôs bem em evidência que a mesma família, qual célula primeira e vital da sociedade, "deve mostrar-se, pela mútua piedade dos membros e pela oração dirigida a Deus em comum, como um santuário familiar da Igreja" (AA 11). A família cristã, por conseguinte, apresentar-se-á assim como "Igreja doméstica" (LG 11), na medida em que os seus membros, cada qual no seu lugar e dentro das suas atribuições próprias, se dão as mãos no promover a justiça, no praticar as obras de misericórdia, no dedicar-se ao serviço dos irmãos, tomando parte no apostolado da comunidade local mais ampla e inserindo-se no seu culto litúrgico (AA 11); e, ainda, se elevarem a Deus orações suplicantes, em comum; se viesse a falhar este elemento no seio da família, então faltar-lhe-ia o próprio caráter de família cristã. Por isso, à recuperação da noção teológica da família, como Igreja doméstica, deve, coerentemente, seguir-se um esforço por instaurar na vida da mesma família a oração em comum.

 

53.  De acordo com as diretrizes conciliares, a Institutio generalis de Liturgia Horarum inclui, justamente, o agregado familiar no número dos grupos aos quais se adapta a celebração em comum do Ofício divino: "É conveniente, lê-se aí, que, por fim, também a família, qual santuário doméstico da Igreja, não se limite apenas a elevar a Deus preces em comum, mas recite, conforme as circunstâncias lho facultarem, algumas partes da Liturgia das Horas, para se inserir mais intimamente na mesma Igreja" (n. 27). Por conseguinte, nada se deve deixar de tentar para que esta indicação clara possa vir a ter crescente e feliz aplicação no seio das famílias cristãs.

 

54.  Mas, depois da celebração da Liturgia das Horas ponto culminante a que pode chegar a oração doméstica, não há dúvida de que o Rosário da bem-aventurada Virgem Maria deve ser considerado uma das mais excelentes e eficazes orações em comum, que a família cristã é convidada a recitar. Dá-nos gosto pensar e auspiciamos vivamente que, quando o encontro familiar se transforma em tempo de oração, seja o Rosário a sua expressão freqüente e preferida. Estamos bem conhecedor de que as mudadas condições da vida dos homens, nos nossos dias, não são favoráveis à possibilidade de momentos de reunião familiar; e de que, mesmo quando isso acontece, não poucas circunstâncias se conjugam para tornar difícil transformar o encontro da família em ocasião de oração. É uma coisa difícil, sem dúvida. No entanto, é também característico do agir cristão não se render aos condicionamentos do ambiente, mas superá-los; não sucumbir, mas sim elevar-se. Portanto, aquelas famílias que queiram viver em plenitude a vocação e a espiritualidade própria da família cristã, devem envidar todos os esforços para eliminar tudo o que seja obstáculo para os encontros familiares e para a oração em comum.

 

55.  Ao concluir estas observações, prova da solicitude e da estima desta Sé Apostólica pelo santo Rosário (Terço-Coroa), queremos entretanto recomendar que, na difusão de tão salutar devoção, as suas reais proporções não sejam nunca alteradas, e que jamais ela seja apresentada com inoportuno exclusivismo: o Rosário é uma oração excelente, em relação à qual, contudo, os fiéis se devem sentir serenamente livres, e solicitados a recitá-la com compostura e tranquilidade, atraídos pela sua beleza intrínseca.  .....»

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publicado por P. Alípio Barbosa às 19:15





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